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Da arte da palavra ao prazer da leitura V

Sérgio Napp

Fico me perguntando se existe, ainda, alguma coisa a dizer sobre livros. Ou sobre leitura. Ou sobre qualquer coisa que se coloque sobre a face da terra. E me respondo, há. E assim não tenho saída, a não ser escrever sobre. Com uma ressalva: cuidado, ler pode ser perigoso.

Ler desperta sentimentos, às vezes, estranhos. E pode nos transformar. E pode nos alertar para problemas até então não percebidos. E nos despertar para realidades nunca imaginadas. Portanto, todo cuidado é pouco. Vá devagar. Não pegue pesado. Nada de começar com Cidade de Deus, do Paulo Lins; ou Vinhas da ira, do Steinbeck; ou com a poesia do Carlos Drummond de Andrade ou do João Cabral de Melo Neto. Pode-se quebrar o andor. Porque se resolver ler pra valer você é capaz de descobrir o que existe para além do horizonte da nossa vidinha quotidiana. E pode doer, amigo, pode doer. Pode provocar gastrite, pode provocar úlcera. E arroubos de cólera. Ao mesmo tempo, você descobrirá um bem inimaginável, mas que irá adentrar sua alma e corroê-la: a cidadania.

Talvez seja melhor, portanto, você aguardar um pouco mais e continuar assistindo ao Faustão, ao Gugu, ao Luciano, ao Ratinho e tantos outros. Daí, você continuará pensando que a vida é isso mesmo e aquilo também. Poderá dormir tranqüilo. Tomar café calmamente, sair a bordo de seu carro com ar condicionado e som estéreo, chegar ao serviço sorrindo. Sem ver os meninos maltrapilhos nas sinaleiras; sem tomar conhecimento dos mensalões ou das últimas ações de nossos esforçados, compenetrados e bem-intencionados representantes públicos. Que você ajudou a eleger, lembra?

Talvez você se horrorize com os últimos acontecimentos ocorridos em São Paulo, mas, e daí? São Paulo está a centenas de quilômetros e nós, bem, nós estamos ao sul de um outro mundo onde se tem a melhor qualidade de vida, os melhores quadros políticos, o mais belo pôr-do-sol, os melhores índices de educação. E outras tantas regalias e atributos. Para que preocupações? Tudo se resolve com mais uma grade na porta, um vigilante na calçada, um reforço no alarme. Coisas banais.

Ler, amigo, irá lhe abrir os horizontes além do trivial futebol-cerveja-carro-mulher; desenvolver o raciocínio sem prendê-lo ao feijão e arroz do dois mais dois são quatro; levá-lo a outros patamares de compreensão e não apenas discutir o inútil problema do Código Da Vinci; fazê-lo discernir entre tantas opções que a todo o momento se nos apresentam. Ler, amigo, irá arejar sua alma e fazê-lo entender o que se passa por trás dos acontecimentos, seja de São Paulo ou do Iraque; porque somos o que somos e porque este país é o país em que o transformamos. Talvez cause calafrios, dores nas articulações, noites mal-dormidas, taquicardia. Não importa. Leia. É absolutamente necessário para o mundo, para benefício dos que lhe cercam, para melhorar as relações interfamiliares, para desobstruir os canais incompetentes, para resolver os insolúveis problemas celulares. Leia. Seu café, a ida ao serviço, o som estéreo, o jogo de tênis nas noites de terça, o encontro com os amigos nos finais de tarde nunca mais serão os mesmos. Mas vocês, finalmente, terão se transformado em seres humanos.
 

 

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