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Prêmio Açorianos de Música

Sérgio Napp

O depressivo-sonhador nunca havia assistido a uma premiação de qualquer dos Açorianos. Aconteceu que um de seus poucos amigos o convidou para a premiação do Açorianos de Música. E o depressivo-sonhador não perdeu tempo. Principalmente porque a cerimônia se realizaria no Theatro São Pedro e este teatro lhe traz lembranças inesquecíveis. Há poucos dias, Júlia Lemmertz, Clarice Niskier e Ednei Giovenazzi ali se apresentaram com a peça Mary Stuart. O depressivo-sonhador a assistira, há tantos anos que ele nem lembra quantos, a mesma peça com Cacilda Becker, Cleide Yáconis e Walmor Chagas. O depressivo-sonhador é um tanto quanto delirante. Talvez ele tenha apenas ouvido ou lido sobre a peça, mas isto não importa: para ele, entrar no Theatro São Pedro, é voltar ao tempo que foi. Mas o assunto é o Açorianos. O fato de a platéia estar lotada indicava o apreço pelos concorrentes e isto agradou ao depressivo-sonhador. Muitos ele conhecia, outros apenas de referência e poucos lhe eram desconhecidos. A cerimônia foi muito bonita e bem organizada. Timming impecável. Bom gosto nos cenários, na escolha dos apresentadores, na seleção dos músicos e intérpretes. Um pouco longa, concluiu. Muitos se afastaram antes de anunciarem os principais prêmios da noite. Uma pena. Este, povo, filosofa o depressivo-sonhador, é capaz de ficar até as três da madrugada acompanhando a cerimônia do Oscar, mas não tem paciência para esperar o final de um evento que premia os melhores da música entre os gaúchos. Falta de consideração, pensou. Por falar em Oscar, ao contrario deste, nenhum órgão da imprensa publicou a lista completa dos concorrentes. Estranho, pensa o depressivo-sonhador. Não é o principal prêmio de música do estado? É, responde o amigo. E daí? Daí, que é assim mesmo. O que mais lhe chamou a atenção foi a manifestação do Bebeto Alves ao receber o seu troféu especial. Ao relembrar alguns fatos de sua carreira recordou suas discussões com várias pessoas presentes sobre o fato de que o artista gaúcho não tem apoio da mídia, nem daqueles que deveriam se empenhar pela divulgação do trabalho feito. Mas e aquela platéia lotada e os calorosos aplausos nada significavam?, refletiu o depressivo-sonhador. Quem sabe o Bebeto estaria exagerando?

No dia seguinte, resolveu adquirir alguns dos CDs premiados. Foi a três lojas em Porto Alegre. Na Multisom não encontrou nenhum dos quatro CDs que procurava. O depressivo-sonhador estranhou. Ué, a Multisom não é uma cadeia de lojas gaúchas? Não deveria ela promover, mais que todas, os artistas premiados? É, disse-lhe o atendente. Infelizmente não temos nenhum dos CDs. Dirigiu-se à Livraria Saraiva. O fato se repetiu. Não temos autonomia para comprar diretamente, explicou o funcionário. As compras são feitas em São Paulo. A gente solicita, mas eles não atendem. Quase desiludido, foi até a FNAC. Lá, pelo menos, encontrou dois dos CDs procurados. Arre, pelo menos não saio de mãos abanando.

Dias após o amigo, aquele que o convidara, confirma suas previsões: a dificuldade na distribuição do material aqui produzido é enorme. E emendou: Só a Livraria Cultura age diferente. Recebe o material em consignação, e ainda mais, o distribui para as filiais em todo o Brasil. Fora dela, apenas nos espaços alternativos se têm chance.

O depressivo-sonhador ficou um tempo matutando. Para que todo o trabalho daquele povo, então? Satisfação pessoal? Tentativa de, quem sabe lá, furar o bloqueio? Finalmente entendeu o discurso do Bebeto. Se este pessoal não toca, não é ouvido, se não os encontramos no mercado, então eles não existem. É isto, não existem. O que aconteceu naquela noite no Theatro São Pedro foi uma miragem, uma ilusão. Desfeita ao se deixar o Theatro. Para quê então a cerimônia: para massagear egos? De quem? Não seria mais interessante, neste caso, realizar a entrega dos prêmios em um ambiente menor, um bar ou restaurante, por exemplo, onde todos pudessem confraternizar? E ainda mais, conclui o depressivo-sonhador falando ao amigo, o dinheiro gasto pela Prefeitura poderia ser distribuído entre os vencedores.

Pelo menos, além dos cumprimentos e troféus, levariam para casa uma grana o que lhes possibilitaria engendrarem novos projetos. Novos sonhos. Participarem de outro Açorianos. E reclamarem, é claro. Que ninguém é de ferro.

 

Comentários:

Muito lúdica explanação, caro depressivo-sonhador!
Então Bebeto Alves e todos os premiados são ilusão!
Mas não são, não é mesmo? Onde há o atravancar para os artistas gaúchos, há também seus fãs em deleite e suas obras expostas não para orgulhosos egos mas para ditosos ouvintes.
Expostas onde? Pode perguntar o depressivo-sonhador...Pelo ar, amigo!
Pelo ar de Porto Alegre e interior...pelos shows e espalhados na busca afã da arte que nos complete!

Coisa que tenho observado: Nossos artistas não estão acostumados com os holofotes apontados pra eles...Podem preparar-se para o susto que tomarão ao perceber que nessa nova onda 'espraiada' de acesso à arte, eles não estão escondidos como estavam na época que apenas UMA mídia ditava a moda.

Abraço de fã!
Anorkinda Neide, Porto Alegre 31/07/2009 - 00:43
Essa expressão depressivo sonhador deveria ser escrita toda com letras maiúsculas,negrito,pois esse pode ser pseudônimo de algum grande autor, ou aida descrever alguma grande personalidade. Essa combinação de estados emocionais certamente se bem aproveitada e explorada por quem a tem pode render grandes pensamentos tradusidos em obras(músicas,livros,etc)... e viva os poetas
Fabiano Pereira Silveira, Panambi-RS 10/07/2009 - 10:03

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