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Sergio Napp

Dom Luís alça as orelhas, põe as patas no beiral da janela e olha para o longe. Caso saia em disparada campo afora sei: é meu sobrinho que chega de manso, é de seu feitio, que a tudo deve atenção. Dom Luís cerca a montaria, tanta alcançar-lhe as mãos, late, sacode o rabo como se quisesse levantar vôo e aterrissar sobre o lombo do animal para se acomodar junto ao amigo. O rapaz sorri um riso de pura alegria. Abraço-o com o carinho de quem não tem filhos e faz de conta. E aí, tio, irreverente feito os jovens de sua idade, já colocou mulher neste corpo? Se ele soubesse quantas. A mais importante perdi devido às impaciências da juventude. Quanto me arrependo. Sirvo-lhe um mate e umas bolachas de polvilho. Ele gosta daquela calmaria de sem-fim do campo. Se pudesse se arranchava por ali. Mas os luminosos e os ruídos da cidade o atraem. Sente-se nele esta dualidade. Sei bem que este dilema dificilmente terá solução. Quando pode permanece por ali um par de dias. Tomamos banho no arroio, batemos corrida a cavalo. Churrasqueamos próximos à enorme figueira que se alça contra o céu. Proseamos noite adentro. Falo das assombrações e causos de Passa Passa Quatro. Ele me conta sobre a universidade, os amigos, as namoradas, as festas. Que saiu, pela primeira vez, com o carro do pai sem pedir licença. Vislumbro em seus olhos o início da chama que nos leva a tentear aventuras e atropelos. Não lhe digo nada, mas por dentro, aprovo. E o coração recorda, ainda uma vez, o que a razão tenta esquecer. Ficamos ali até que os gemidos da noite indiquem que é hora do sono. E a internet, tio? Me basta a biblioteca. Chegado o tempo, encilha o cavalo e se prepara. Antes de dar a partida e sem me olhar, pergunta: E o testamento, tio? Qual a serventia? Se fizer, deixa o cachorro pra mim. Dom Luís o acompanha até o limite além do qual, ele sabe, não há volta. Por dias permanece enrodilhado até que uma borboleta azul acabe por livrá-lo de sua apatia. Que a vida precisa de um sentido para se poder vivê-la.

 

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