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Viver a Vida

Sérgio Napp

 

Visto a camisa, escondo a identificação do pulso, visto uma calça, a sandália, e saio do quarto. Esgueiro-me pelos corredores silenciosos, passa da meia-noite, cruzo por um ou outro segurança e me dirijo para a Ramiro Barcelos. Subo até a Independência e me sento em um dos bancos da praça. O burburinho é grande: carros, buzinas, pessoas, bêbados. A iluminação das ruas e os edifícios apagam as estrelas. De algum apartamento vem uma música em alto volume, talvez uma festa. Não há calma. Fico pensando: lá naquele fim de mundo onde eu vivo não há nada disso. E eu me sinto melhor. Porque eu vejo as estrelas, porque eu posso passear na grama molhada de sereno com os pés descalços, porque não há ruído de carros. Aliás, não há ruídos a não ser o dos grilos, de um ou outro pássaro retardatário ou de um animal que muge muito ao longe. A tranqüilidade me faz um bem enorme. É dela que eu preciso. Ela me revigora e me faz ver que a vida tem sentido. Lá, se eu quiser, cavalgo nu com o Mancha. Lá, nas noites de verão, me banho no arroio em brincadeiras com o Dom Luís. Lá, durmo ao relento acompanhado dos meus amigos. Lá, naquela vastidão de campo, naquele emaranhado de árvores, debaixo do sol que funde os miolos, caminhando e cantando aquela velha canção, lá é onde a alma se refresca.

Volto para o hospital, deito-me. Não durmo pensando no que eu deixei. Vim para tratar de uma ascite. O início foi uma baita febre. Deverei fazer uma série de exames: pulmões, coração, endoscopia, colonoscopia e, a mais delicada: uma laparoscopia abdominal para exame completo. Procurando o que? Um câncer? Irão descobrir? Não sei. Talvez alguma coisa, talvez nada. Talvez fique mais um tempo neste hospital. Os dias têm sido modorrentos. As lembranças de lá se tornam cada vez mais vívidas. Só de uma coisa tenho certeza: este não é o meu lugar.

Quero que me dêem alta, quero sair. Quero voltar para a companhia de quem me espera. Quero viver e morrer no lugar que eu escolhi. Deus me deve esta.  

 

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