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Inquietação

Sergio Napp

Tem dias em que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Tem dias em que a gente olha pela janela e um baita sol nos espia, mas vemos chuva e neblina. Não adianta alguém nos assegurar, é sol, vemos o que os olhos querem que vejamos, chuva e vento. Não se trata de incompatibilidade visual, mas algo que rói por dentro, algo que nos incomoda, que nos atrapalha, chega a doer. Nossa pele grita, é sol, cara!, mas lá de dentro uma voz encolhida responde, baixa e segura, é chuva. A alma enregela e não há lençol térmico, abraços cheios de carinho, ou vinho tinto que a recupere. Assim levamos os dias, estes dias em que tudo nos parece cinza.

É um sobe-e-desce de escadas e a sensação de que nada vale a pena. Que todo o esforço para abrir portas esbarra na impaciência de ter de abri-las. Comemos porque precisamos, vamos à academia porque o coração exige, cumprimos um que outro compromisso urgente com o máximo que a boa-vontade nos permite. Sabemos que é necessário reagir, que o mundo precisa de nós, que não há futebol, não há missa, não há shows, não há viagens, se não estivermos a postos. Cadê a vontade para tanto, onde se escondeu a determinação que nos impelia a percorrer léguas sem nada de língua pra fora? Deve ter adormecido entre cobertores e música para relaxar.

Sabemos que temos de pagar contas, levar os cachorros para o banho, escrever o artigo aquele, a letra que nos pedem, o capítulo que falta para terminar a novela, tratar de resolver o problema da câmera, ir ao dentista. Temos o lançamento do novo livro, a preparação de mais um CD, apanhar os extratos no banco, os documentos no Fórum. Sabemos de tudo. A lista à nossa frente é extensa. Mas só o que fazemos é olhar a chuva e mastigar, compulsivamente, barras de chocolate.

Tem uma música tocando no rádio: até ontem era a melhor do mundo, nos dias de hoje, uma chatice. Tem uma garota nos olhando safada: até ontem era tudo o que desejávamos, nos dias que passam, bate a indiferença. Tem uma oportunidade única de conhecer o Tibet, sonho acalentado por anos a fio, hoje, preferimos a cama. O tempo não para, mas todo o sentimento é se esquecer embaixo das cobertas esperando a banda passar.

Nestes dias em que a chuva teima em cobrir o sol, não somos nós os que nos fazemos presentes: outros nos habitam. Outros que nos induzem a esquecer os sonhos, as brincadeiras de roda, os papos descontraídos, o melhor Shiraz da face da terra; a dançar pelo infinito, a voar com os pássaros, a percorrer estrelas, a beber o mar, a salgar a alma, a arriscar no skate, a saltar de paraquedas, a pular no vulcão, a enfrentar a vida.

Nestes dias somos um tempo malfeito, uma expedição que não deu certo, um caminho à Compostela que ficou pela metade, um passeio pela cidade subterrânea que falhou, uma saudade que nasceu à noite e se espalhou pelo dia. Não há nada a fazer nestes tempos a não ser cruzar os braços, fechar os olhos e suspirar profundamente.

Resta a absurda esperança de que, ao acordarmos de nós mesmos, um puta sol nos encare, embora lá fora chova a cântaros.

 

Comentários:

Olá, Sérgio!
Gostei muito do seu texto. Você tem muita sensibilidade no que escreve. Vou procurar ler os outros textos seu.
Abraço.

oliveirabicudo.blogspot.com.br
Carlucio Oliveira Bicudo, Resende-RJ 25/04/2012 - 07:05
Puxa, há tempo não lia algo que traduzisse tão bem essa nostalgia que, de vez em quando, afoga a alma da gente. Será que é a chuva? Ou é o outono em nossos corações? Um trecho tão lindo....
Helo, Porto Alegre RS 27/08/2011 - 18:35

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