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Mar&Sonhos

Sergio Napp

O mar é a imensidão que os olhos vêem. O mar continua além do que enxerga, ele sabe. E se pergunta o quanto haverá de mar além do mar que ele vê. Quantas além da única ilha que se mostra diante dele. Quantas ondas quebrarão a seus pés. Quantas em outras praias, vilas, cidades. É tanta água que ele não imagina onde o começo ou o fim. E o que haverá dentro deste mar? Quantos peixes, tubarões, navios, sereias, povoam o mar? O barco que, às vezes, passa por ali, como se mantém sobre a água? E as gaivotas, como descobrem os peixes? Quantos mistérios o mar esconde? Há outro mar embaixo do mar que ele vê?

A casa fica a uns cinqüenta metros da praia. Toda voltada para o mar. Os olhos da mãe se misturam aos da casa e o vigiam. Por isso é que se encontra, todos os dias, frente ao mar. Próximo há um bosque que a cerca e oferece sombra. Nele existem árvores de várias espécies. Maiores e menores. Esbeltas e grossas. Arbustos. Clareiras cobertas de grama. E areia. Pode explorar o espaço que quiser, desde que este espaço fique nos limites da visão da mãe. E da casa. Já descobriu conchas grandes e pequenas; borboletas com as mais diversas cores; pássaros cantadores; ninhos com ovos ou com filhotes. Costuma subir nas árvores, o mais alto que pode para ver se descobre onde o mar acaba. Ainda não conseguiu.

Lembra do apartamento. Nele, havia o seu quarto, pequeno. No quarto, passava as tardes com os seus brinquedos: bonecos, carrinhos, livros, lápis de cor, cadernos. O mundo era o quarto e, poucas vezes, o resto do apartamento. No quarto, ele e os sonhos se refugiavam. O que se passava fora do edifício não lhe dizia muita coisa. Barulho de carros e ônibus, buzinas, alguns gritos e risadas, um pouco de céu, o sol lá pelo alto. Quando trocaram o apartamento pela casa o mundo se tornou tão grande que os dias ficaram pequenos demais para explorá-lo. O menino tentava e, menino que era, tinha o tempo que necessitasse. Cada dia um novo encontro. Uma pedra, por exemplo. Ele buscava os sinais, a aspereza, as reentrâncias, a rugosidade, a forma, enfim, os detalhes. Nesta busca, as horas passavam sem que se preocupasse porque o tempo, para ele, era apenas uma infinidade delas. Havia muito para descobrir e o tempo com seus minutos e segundos jogava a seu favor. Quando a pedra não tinha mais segredos, era o galho jogado ao chão que despertava seu interesse. Ou a folha, ou o ninho, ou o pássaro, ou a flor, ou o grão, ou a semente, ou a concha, ou mesmo o besouro.

Acostumado aos limites do apartamento, ao chegar à casa nova e ver o mundo que se desenhava ante seus olhos, assustou-se. Por alguns dias se deixou sentado na escada da porta da cozinha examinando, em detalhes, tudo o que seu olhar abrangia: o bosque, a areia, o mar. Foram dois dias de observação, ao cabo dos quais resolveu conhecer seus domínios mais de perto. Primeiro o bosque, depois o mar. Ao sentir a água e, principalmente, a espuma, cobrir seus pés a sensação foi inigualável. Desde então, o encantamento.

Rafa tem seis anos. Porque não há crianças com quem brincar uma vez que a casa fica em uma região isolada, longe das outras, e os colegas de aula, pouco aparecem, a não ser em festas de aniversário ou quando os pais os convidam para passarem a noite com ele; e porque as tardes são sozinhas, inventa maneiras de passá-las. Inventa brinquedos, inventa histórias, cria fantasmas, dinossauros. Seus olhos, cada vez mais atentos e perspicazes, se tornam craques em descobrir tudo o que existe e o que não existe em seu espaço.  Só não inventou o mar. É seu amigo de coração. Às vezes, conta a ele como foi o dia de aula, o nome dos colegas, as brincadeiras no colégio, o sorvete que o pai oferece antes de voltar para casa. O mar é seu melhor companheiro. Por isso, ele se põe, o mais que pode, nas suas proximidades. Traz pá, carrinhos, bonecos. Com eles cria um mundo só seu. Se uma ou outra onda mais forte acontece, deixa que a água salgada o molhe. É um momento único. Gostaria que o mar ficasse junto com ele, mas ele se afasta logo, deixando-o na expectativa de sua volta.

À noite, o mar se achega à casa. É a maré alta, explica o pai. Ele não contesta o pai, mas se chega é pra conversar com ele. Se pudesse sairia ao seu encontro. Dorme ouvindo o murmúrio do mar. Quando acorda ele está no lugar de sempre, brincando com suas ondas cheias de espuma. Rafa toma o café, acena para o amigo, e vai para o colégio. Na volta, o maior desejo é reencontrá-lo. Apanha a pá, o carrinho, os bonecos, e corre até ele. O amigo o recebe sempre de águas abertas.

 

Comentários:

Escritor Sérgio,sou sua fâ incontestável.
Adoro seus contos.Este está muito lindo,até comovente para as pessoas sensíveis.Tenho seus livros de contos e me delicio com eles.Também escrevo contos,mas gostaria de ter esta desenvoltura no jogo das palavras.Parabéns!
Suely Braga, OSÓRIO RS 29/02/2012 - 23:22

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