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Olhos da lua

Sergio Napp

Os olhos da lua teimavam em permanecer abertos quando entendi que ele não viria. Inútil a espera, o perfume e os arranjos do coração. Talvez aparecesse em outra noite, mas já não seria a mesma coisa. As noites todas podem parecer iguais, mas a ansiedade do coração, não. Feito as ondas do mar, as fases da lua, o espreguiçar das folhas ao vento, a cantoria dos pássaros – num primeiro momento tudo parece se repetir, mas é ilusão. São sempre outros os movimentos e as notas.

Volto ao quarto, tiro a roupa com tanto esmero escolhida, desfaço a cama, sento-me frente ao espelho para retirar a maquiagem. Displicentes, meus dedos procuram um entre tantos potes, quando meus olhos percebem um fio branco entre os cabelos. Sorrio: um fio branco, uma leve ruga no canto da boca, pequena mancha no pescoço. Que mais?
Há quanto, quanto tempo deixara de me observar com os cuidados antigos? Quando menina, todas as noites, fazia uma revista completa em meu corpo, da cabeça aos pés, acompanhando cada mudança, cada aumento de volume, cada pêlo recém nascido e tanto era o meu espanto com o novo e quanto me alegrava com a surpresa. Com verdadeiro prazer se cumpria àquela hora e suas descobertas.

Estranha a vida com seus descaminhos. Nada sobrara daqueles momentos de satisfação, a não ser pequenos gestos por onde se podiam perceber, difusamente, uma ou outra lembrança. Esquecera o ritual e seus signos, mas talvez, com um pouco de esforço pudesse reproduzi-los.

Desabotôo os botões e deixo a camisola cair: eis meus seios, nem grandes, nem pequenos, ainda firmes; eis a pele ainda sedosa. Acaricio-a como, por certo, nenhum homem soubera fazê-lo e me surpreende esta constatação: para isto foram feitos, para a carícia, o beijo e o gozo. No entanto, ali estavam à espera que isso se cumprisse.

Levanto-me e a camisola me cai aos pés. Lentamente tiro a calcinha e me afasto um pouco do espelho para que me reflita por inteira. Não mais a antiga alegria, mas certa angústia.
Percorro o corpo todo com dedos de marinheiro que busca descobrir a suavidade da espuma e o mistério do sal, dedos aventureiros se arriscando por sombrios e inexplorados caminhos, dedos de delinqüente abrindo janelas e portas em busca de algum tesouro.

Eis meu corpo entre tantas e tantas mãos, desvarios e fantasias. Nele as marcas rudes do inverno, as chuvas calmas de abril, os ventos tristes do outono, algumas flores, quase sem cor, colhidas em tardes de uma distante primavera, as sombras de uma erosão lenta, porém inevitável. 

Meu corpo: vozes e risos, brigas e afagos, gritos e gemidos, enchentes e secas, pássaros e leões, barro e veludo.
Interessante te olhar assim, corpo, tendo passado o tempo do brilho e se aproximando o do estio, e perceber em ti o mesmo e antigo latejar. Quantos passaram e quantos passarão descobrindo teus caminhos e dobras? A quantos realmente te entregaste e quantos, e foram tantos, não souberam te entender?

Reabro as cortinas e janelas e deixo os últimos raios de lua contemplar minha nudez. Passeio sob a sua luz e sou fada brincando com as estrelas. Acaricio meu corpo feito mãe lambendo filho, ali, naquela cama de nuvens, à espera do sol e sua posse.

 

Comentários:

Texto masculino com alma feminina.
Lindo!
Maria Helena, Porto Alegre/Rs 25/10/2012 - 21:55
Gostei muito do texto e me redescobri nele... : ())))))))) Parabéns, Mestre.
Teresinha M .Canini Avila, Porto Alegre 15/09/2012 - 10:03
Que alegria ler Sergio Napp, é como tomar um bom vinho, com sommelieres e amigos...deve ter uma verve que os deuses não o deixam descansar até deixar a herança literária prometida neste humano...tão precisado de técnica e beleza!
Ivete Todeschini, Bento Gonçalves 13/09/2012 - 14:55
Ótimo conto.Gosto muito dos contos do escritor Sérgio Napp.São contos onde ele escreve com alma e muita poesia.
Suely Braga, Osório -RS 11/09/2012 - 17:48
Lindo texto, A alma tem que ser grande para entender assim o sentimento da mulher, sendo homem
Gerci Oliveira Godoy, Porto Alegre- RS 08/09/2012 - 18:15

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